terça-feira, 25 de setembro de 2012

Igreja Católica alemã quer negar sacramentos a quem não pagar imposto

 
Niedersachsen/ Der Vorsitzende der Deutschen Bischofskonferenz und Erzbischof von Freiburg, Robert Zollitsch, gestikuliert am Freitag (14.09.12) in Hannover bei seiner Begruessungsrede zum Gespraechsprozess der deutschen Bischoefe. Die Veranstaltung steht unter dem Leitwort "Die 'Zivilisation der Liebe' - unsere Verantwortung in der freien Gesellschaft" und findet bis Samstag (15.09.12) statt. (zu dapd-Text)
Foto: Focke Strangmann/dapd

Saiu do DW
 
Alemanha

Bispos disputam na Justiça direito de vincular rituais católicos à contribuição financeira obrigatória. Críticos dizem que ação ameaça comunidade católica e não remedia perda de confiança na Igreja nas últimas décadas.



Nesta quarta-feira (26/09), o Tribunal Administrativo Federal alemão, uma das mais altas cortes do país, anuncia o veredicto sobre um litígio que pode mudar o destino da Igreja Católica na Alemanha. Os juízes decidirão se um cidadão pode deixar de pagar imposto religioso, mas continuar tendo direito aos sacramentos.

Na Alemanha, os contribuintes têm de 8% a 9% de seus ganhos descontados para a Igreja, a menos que se declarem "sem religião" ou que renunciem formalmente à Igreja. O imposto religioso é regulamentado por lei e retido na fonte pelo Estado.

A disputa começou em 2007, quando o teólogo Hartmut Zapp declarou ter deixado a Igreja Católica como "órgão público". Ele se negou a continuar pagando o tributo, mas afirmou que continuava sendo membro ativo e devoto do catolicismo. Em seguida, a Arquidiocese de Freiburg entrou com uma ação contra Zapp. Muitos católicos alemães seguiram o exemplo do teólogo e também declararam que não pagam mais imposto à Igreja, embora continuem participando de missas e outras cerimônias da entidade.
 
Fé versus dinheiro

Zapp argumenta que a Igreja alemã estaria ignorando o Vaticano, que em 2006 declarou que a saída formal da Igreja perante de um órgão estatal não é suficiente para justificar a excomunhão, ou seja, o cancelamento de todos os direitos eclesiásticos. O teólogo afirma que, segundo a doutrina católica, a condição de membro da Igreja é determinado pelo credo da pessoa, não por uma relação financeira.
ARCHIV - Der Vorsitzende der Deutschen Bischofskonferenz, der Freiburger Erzbischof Robert Zollitsch, spricht am 24.02.2010 in Freiburg bei einer Pressekonferenz im Rahmen der Frühjahrsvollversammlung der Deutschen Bischofskonferenz. Die katholische Kirche in Deutschland will ihre Mitglieder zu einem stärkeren Verkünden ihres Glaubens ermutigen. Katholiken sollen ihre religiösen Überzeugungen und Werte offensiv und einladend nach außen tragen, sagte der Vorsitzende der Deutschen Bischofskonferenz Robert Zollitsch in Freiburg in einem Gespräch mit der Nachrichtenagentur dpa. Foto: Rolf Haid dpa +++(c) dpa - Bildfunk+++
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Robert Zollitsch: "quem não contribui, não tem direito a funeral religioso"

Entretanto, na semana passada um decreto publicado pela Conferência dos Bispos da Alemanha, em acordo com o Vaticano, afirma não ser possível ao cidadão declarar sua saída formal da Igreja e, ao mesmo tempo, manter seus direitos de membro da comunidade católica. Com isso, a Igreja Católica alemã vincula o status de católico ao pagamento do imposto religioso. Segundo o documento, a renúncia à Igreja não leva automaticamente à excomunhão – mais severa punição eclesiástica. Mas leva à perda de quase todos os direitos em relação à Igreja.

"Se a pessoa se distancia da Igreja em um ato público, então tem que haver conseqüências para isso", declarou o arcebispo Robert Zollitsch, presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha. "Quem renunciar à Igreja não pode permanecer um membro ativo e receber sacramentos", acrescentou o religioso, que é arcebispo de Freiburg. "A pessoa tem que estar consciente de que, se não mostrar arrependimento, não terá direito a um sepultamento cristão."
 
Arrecadação tem aumentado

O movimento de católicos Wir sind Kirche ("nós somos Igreja", em tradução livre) acusou o decreto episcopal de ser uma ameaça aos católicos alemães, além de um "sinal errado, na hora errada". O grupo crítico, que também luta pelo direito de os padres se casarem, acredita que os bispos alemães e o Vaticano temem sofrer mais perdas de impostos.

Em 2011, mais de 126 mil cidadãos alemães declararam não ser mais católicos e deixaram de pagar o imposto religioso. As renúncias anuais chegaram ao recorde de 181 mil em 2010, quando a Igreja foi muito criticada por supostamente ter acobertado casos de abuso sexual de menores.

Apesar disso, os ganhos com o imposto religioso subiram nos últimos anos. Em 2011, a Igreja Católica alemã comemorou a segunda maior arrecadação desde a reunificação do país, com quase 5 bilhões de euros, 2,6% a mais que em 2010, quando arrecadou quase 4,8 bilhões de euros.

MD/dpa/kna
Revisão: Francis França

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Desigualdade salarial nos EUA é maior do que na época da escravidão, diz estudo

Saiu no Opera Mundi


Nova York é o estado menos igualitário do país, segundo o jornal Huffington Post
Wikicommons
Acampamento de norte-americanos sem moradia na cidade de Seattle; desigualdade salarial é maior do que durante o período colonial 

A desigualdade salarial entre os norte-americanos é maior hoje do que nos tempos da escravidão. Essa é a conclusão de um estudo divulgado neste mês pelo National Bureau of Economic Research.

Mesmo com a inclusão dos milhões de negros que eram obrigados a trabalhar até quando os seus proprietários julgassem necessário, a divisão de renda nos Estados Unidos do século 18 era mais justa do que a atual.

O estudo, realizado pelos pesquisadores Peter H. Lindert e Jeffrey G. Williamson, mostra que até mesmo antes da independência norte-americana, em 1776, as colônias britânicas na América do Norte eram menos desiguais do que o país é hoje.
A pesquisa dos dois economistas, das universidades da Califórnia e de Harvard, faz um levantamento das médias salariais nos Estados Unidos entre 1774 e 1860. Segundo eles, o Sul do país, cuja economia era baseada no modelo agrícola escravista, era mais rico e igualitário que o Norte industrializado até a Guerra de Secessão (1861-1865). A partir do início do conflito, porém, o Sul sofreu uma queda vertiginosa em sua renda.

Wikicommons
Pintura do francês François-Auguste Biard, de 1840, mostra o comércio de negros

De acordo com o jornal Huffington Post, o estado de Nova York apresenta a maior desigualdade salarial no país atualmente, com 14,2% da população abaixo da linha da pobreza.

Em seguida aparece Connecticut, que tem a maior média salarial, mas não consegue dividir a renda igualmente entre os seus cidadãos. Texas, Louisiana e Alabama são os outros estados que estão entre as cinco maiores desigualdades salariais dos Estados Unidos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Aumenta diferença de patrimônio entre ricos e pobres na Alemanha

Saiu no DW
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Enquanto o Estado alemão tem cada vez mais dívidas, sua população é cada vez mais rica. Porém, essa riqueza não é distribuída igualmente entre população, como atesta um relatório do Ministério alemão do Trabalho.

A diferença de patrimônio entre os ricos e os pobres na Alemanha está aumentando. Dez por cento das famílias do país detêm mais da metade do patrimônio no país. Essas conclusões são uma prévia do Relatório da Pobreza e da Riqueza, organizado pelo governo alemão. A oposição quer, por isso, a reintrodução da taxa sobre grandes fortunas e o aumento do imposto de renda para os mais ricos.

Com base em dados de 2008, o estudo elaborado pelo Ministério do Trabalho diz que 10% dos domicílios alemães detêm 53% do total da riqueza do país. Em 1998, essa proporção era de 45%.

Por outro lado, 50% dos domicílios alemães detêm apenas 1% da riqueza – há dez anos, eram 4%. De 2007 a 2012, mesmo com a crise financeira, o patrimônio privado aumentou em 1,4 trilhão de euros. 

"Em geral, a situação da Alemanha melhorou", disse a ministra alemã do Trabalho, Ursula von der Leyen. Segundo ela, "o desemprego diminuiu, há menos crianças recebendo ajuda social do Estado e o desemprego entre os jovens é o mais baixo da Europa".

Ela admite, porém, que pessoas com remuneração mais alta têm se beneficiado mais do aumento da riqueza do que os de média remuneração. Ao mesmo tempo, ela defende que pessoas com baixos salários deveriam ter uma chance de ascensão através, por exemplo, de "salários justos".

Os principais partidos de oposição exigem a reintrodução de uma taxação sobre a propriedade privada e impostos mais altos para quem ganha mais. A riqueza é medida pelos ativos líquidos, como bens imobiliários, investimentos em dinheiro, terrenos ou aposentadoria. 

A secretária-geral do partido Social Democrata, Andrea Nahles, critica o que chama de "gigante redistribuição" a favor dos ricos e dos super-ricos.
 

Michael Hartmann: distribuição desigual traz consequências negativas para a sociedade

Estado pobre, população rica

 "Os orçamentos públicos perderam nas últimas duas décadas mais de 800 bilhões de euros em patrimônio", diz o relatório do Ministério do Trabalho. Em entrevista à Deutsche Welle, Ralph Brügelmann, do Instituto da Economia Alemã, não se disse surpreso. "Os motivos são bem óbvios: o forte crescimento da dívida pública. Os ativos vinham crescendo até 2009, mas as dívidas também subiram rapidamente. Por isso houve perda de patrimônio."

Já o contrário aconteceu no caso da propriedade privada. De acordo com o relatório, o patrimônio líquido dos alemães cresceu de 4,6 trilhões de euros em 1992 para cerca de 10 trilhões de euros até o início de 2012. Mesmo nos anos de crise, entre 2007 e 2012, ele cresceu em 1,4 trilhão de euros.

Brügelmann explica por que a alta dívida do governo e a riqueza privada não são contraditórias. "A atividade econômica na Alemanha está, basicamente, nas mãos de investidores privados. E os investimentos privados tendem a trazer o maior retorno".
O professor de Sociologia da Universidade Técnica de Darmstadt, Michael Hartmann, frisa que a desigualdade traz riscos, também, para a economia. "Uma das razões para o desencadeamento das crises financeiras é sempre a extrema desigualdade, pois no alto da pirâmide há muito dinheiro, que não entra na cadeia de consumo, mas sim em investimentos especulativos".
 
Intervenção do governo ou economia livre?

Na opinião de Hartmann, o Estado deveria, portanto, combater a desigualdade com impostos mais altos para as pessoas com maiores salários e com mais bens. "Se hoje tivéssemos as mesmas taxas de impostos que tínhamos em meados da década de 1990, isso significaria 40 a 50 bilhões de euros em impostos a mais no ano."

Porém, isso não convence Christoph Brügelmann, do Instituto da Economia Alemã. "A conjuntura se aquece, mas não há crescimento. O que em curto prazo é bom para a conjuntura, é, em longo prazo, tóxico para novos investimentos."

Essa é uma tese da qual Michael Hartmann discorda: "Esse é o mantra da política econômica: rendimentos mais elevados das camadas mais ricas garantem os investimentos, e investimentos garantem empregos. Este é o efeito trickle-down (teoria do fluxo contínuo), de que se fala há vários anos, mas não  aconteceu até hoje".
 
Ricos ficam mais ricos, pobres continuam pobres

De fato, o estudo do governo, publicado a cada quatro anos, confirma uma tendência: a diferença de patrimônio entre pobres e ricos no país, ao longo dos anos, cresce. Em 1998, os mais ricos possuíam 45% do total de bens no país. Já em 2008, esse mesmo grupo detinha mais de 53%.

 O Ministério do Trabalho constatou, também, que houve uma desigualdade no crescimento salarial: enquanto os vencimentos nos cargos mais altos aumentaram, nas categorias mais baixas, 40% dos trabalhadores em tempo integral sofreram cortes salariais.
 
Onde está a justiça?

Michael Hartmann chama a atenção para outros efeitos resultantes dessa desigualdade. "Isso mudou tão drasticamente em um período tão curto que a massa da população percebe e acha injusto".

Uma avaliação aparentemente compartilhada pelo Ministério alemão do Trabalho, que a respeito da evolução dos vencimentos observou: "Esse desenvolvimento salarial fere o senso de justiça da população."

 FC/dw/dpa
Revisão: Roselaine Wandscheer